sábado, 26 de novembro de 2016


Confesso que fiquei algum tempo pensando em como poderia escrever este texto. Não queria algo tão impessoal, afinal, isto não é uma monografia e, vocês leitores, não são minha banca examinadora, muito embora quase sempre sejam tão críticos e exigentes quanto (risos). O fato é que seria quase impossível tratar do tema em questão sem mergulhar de cabeça em minhas ideias e, portanto, aquelas velhas regras textuais agora iriam atrapalhar. Eu quero utilizar-me de todos os pronomes e opiniões possíveis para dividir minha visão com cada um de vocês e fazer deste texto, uma verdadeira conversa – para quem quiser ler – sobre Superman e Batman.

Nos últimos tempos tenho participado de muitos debates em grupos do Facebook e curiosamente comecei a notar uma súbita mudança na opinião dos fãs, principalmente no que diz respeito ao Superman retratado por Snyder em seus filmes “Man of Steel” e “Batman v Superman: Dawn of Justice”.

Sei que o tema é polêmico, sendo assim, não ficarei com muitos dedos e logo de cara direi que nem o Superman de Snyder, nem o dos New52, representam o verdadeiro espírito deste herói nascido ainda na década de 30 pelas mãos da dupla de quadrinistas Jerry Siegel e Joe Shuster.

Para todos que, assim como eu, acompanham o herói desde Crise nas Infinitas Terras, muitos desde a era de ouro, partilharão de minha indignação. Aos recém iniciados no universo, que ainda não tiveram a oportunidade ou até mesmo tiveram a falta de interesse, sugiro a leitura desse material, ou melhor, proponho que aguardem a chegada do Rebirth ao Brasil, já que esta nova fase da editora encarregou-se de atestar a aversão dos fãs da velha guarda, trazendo dos mortos o herói Pós-Crise e enterrando de uma vez por todas esta versão “emo” que levou o personagem ao declínio, tal como o Código dos Quadrinhos “Comic Code Authority” fez com o Batman na década de 50.

Mas afinal de contas, quem é o Homem de Aço? Você nunca encontrará a resposta fazendo esta pergunta. Tente assim: QUEM É CLARK KENT?


Muitos ousam dizer que Kent não passa de um disfarce terrestre para o kryptoniano, ledo engano, pois Kal-El deixou de existir no exato momento em que Jonathan e Martha Kent o acolheram como filho.

Dentre as muitas histórias do herói, a que mais me marcou foi “A Morte de Clark Kent”. Este arco foi publicado no Brasil pela Editora Abril Jovem, em 1997, numa edição especial de 260 páginas. Conta com grandes roteiristas, como Dan Jurgens, Karl Kesel, Louise Simonson, David Michelinie e desenhistas do calibre de Jon Bogdanove, e é sem dúvida alguma um marco na cronologia do herói e eu explico o porquê.


Superman é mais humano do que todos nós juntos: É isto o que esta história deixou de uma vez por todas claro para nós leitores e fãs do personagem. Seu tratamento é diferenciado, ela retira Superman do papel principal e entrega a posição de protagonista a Clark Kent. É ele, Clark, o alvo de todos os ataques vilanescos, inclusive o vilão, advém de seu próprio universo e não daquele criado pelo e para o herói. Para mim, o ápice da história está logo em suas primeiras páginas, quando Clark, bastante perturbado pelos acontecimentos, faz a seguinte revelação a Lois Lane: “Antes de ser o Super-Homem, eu sou Clark Kent. O Homem de Aço é só uma máscara.”


Notaram a grandiosidade desta afirmação?

Ela nos revela uma humildade de magnitude bíblica, presente apenas em seres considerados divinos, tais como Cristo, Buda, Krishna, enfim. Cara, ele é o Super-Homem! Ele tem o poder para dominar o mundo, mas ao invés disso, autoproclama-se – acima de tudo – o humano Clark Kent. No decorrer da história, tal ideia vai ficando cada vez mais contundente, ao ponto de se dizer que Superman poderia deixar de existir, mas não Clark Kent, pois a ele pertence os louros das maiores conquistas colacionadas no decorrer da existência do personagem. Novamente: Ele é o Superman, cara! Como assim as melhores conquistas foram conseguidas por Clark Kent?  A mensagem externada por meio desta HQ é tão absurdamente grandiosa que inegável é o fato de ter ela esculpido, como a um ídolo, a definitiva queda da corrente ideológica que atribuía ao repórter do Planeta Diário o reles papel de identidade secreta, assim o elevando a sublime posição do “Eu Sou”, pois assim como o Flash é Barry Allen; assim como o Arqueiro Verde é Oliver Queen; o herói por trás do “S” é o “humano” Clark Kent.

“O Homem de Aço é só uma máscara. ”

Pu£@ Mer#$@! O cara poderia ser quem ele quisesse, ter o que ele quisesse, no entanto escolheu ser o repórter do Planeta Diário, o morador de um apartamento chinfrim em Metrópolis, mas que graças às suas virtudes, escolheu também ser o homem, que com sua identidade secreta, alcança os céus do planeta para tornar o mundo um lugar mais seguro: para o alto e avante! Existe herói melhor?

Clark Kent é um homem virtuoso, não no sentido sexual da palavra, mas na qualidade daquele que possui e cultiva as Virtudes.

Já li algumas matérias em que Superman foi elevado à qualidade de deidade, uma analogia perfeitamente adequada (agora dou destaque ao incrível texto de meu amigo Jamy Milano, intitulado “O Superman de ZackSnyder: Messias ou Anticristo? ”, uma leitura que, além de fenomenal, é indispensável para quem quiser conhecer esta faceta do herói, para mim este texto é único), mas arrisco dizer que serei o primeiro a traçar uma correlação entre Clark Kent e às 7 Virtudes derivadas do poema de Prudêncio, chamado “Psychomachia”.


Para cada pecado capital existe uma contraparte positiva, e Clark Kent possui todas elas, vejamos:

HUMILDADE – oposto da VAIDADE.

Como já falado, Clark Kent é possuidor de uma incrível humildade, ele é SUPER, mas ainda assim descarta a possibilidade de usar seus poderes para se sobressair, não porque pensa pouco de si, mas porque pensa o menos possível sobre si mesmo.

CASTIDADE – oposto da LUXÚRIA.

Havia nos formatinhos do Superman publicados pela Abril Jovem, algumas páginas destinadas ao “Correio de Krypton”. Como na época não existia a praticidade das redes sociais, as cartas eram a única forma dos leitores se comunicarem com a editora e assim fazerem suas perguntas, tecerem elogios, recomendações, dentre outros. Pois bem, algumas cartas eram selecionadas e publicadas dentro do gibi, lembro-me muito bem de uma garota que perguntou algo mais ou menos assim: “se o Super-Homem é virgem, como ele fazia com a Lois Lane? ”.  Cara, eu dei muita risada e até hoje me pego rindo quando lembro da situação, como agora (risos).

Apesar da virgindade do herói já ter sido oficialmente reconhecida pela editora, a Virtude trazida à baila é muito mais complexa do que isso, ela trata do ato de abraçar a moral e através disso, buscar a pureza do pensamento, a pureza do coração.

Não preciso dizer que Clark Kent representa muito bem a castidade enquanto Virtude, ele chega a cair na lábia dos vilões tamanha pureza de sua alma, ele de fato acredita que por não ser capaz de praticar certos atos, outros igualmente não os praticarão, razão de quase sempre se sentir decepcionado.

CARIDADE – oposto da AVAREZA.

Aqui nós temos uma outra virtude muito presente em Clark Kent. Aqui está o verdadeiro auto sacrifício. O tão famoso dar sem esperar receber. O cara morreu para salvar a Terra, não preciso dizer mais nada, concorda?

TEMPERANÇA – oposto da GULA.

É o Autocontrole, a Moderação, a Justiça.

Inúmeras foram as vezes em que Clark se absteve de agir, pondo em prática o seu autocontrole e assim permitindo que poderes fossem equilibrados e que a verdadeira justiça – ou o mais próximo dela – prevalecesse. Aliás, a temperança é uma Virtude assiduamente presente no cotidiano do herói.

DILIGÊNCIA – oposto da PREGUIÇA.

Dispensa comentários, eu acho. Afinal de contas, mais persistente, decidido, objetivo, disciplinado e motivado que Clark Kent, só o Batman (risos)

PACIÊNCIA – oposto da IRA.

Também não preciso dizer que mais paciente que Clark Kent é impossível. O cara precisa tomar uma surra para compreender que a conversa não levará a uma solução pacífica.

BONDADE – oposto da INVEJA.

Clark Kent é só coração. Ele tem compaixão, amizade, ele gosta sem preconceito, sem ressentimento e não exige contraprestação.

Cara, definitivamente ele representa tudo o que de melhor foi idealizado para o ser humano perfeito. Eu acho que ao invés do “S”, ele deveria estampar o número “7”, de Cavaleiro das 7 Virtudes: HUMILDADE, CASTIDADE, CARIDADE, TEMPERÂNÇA, DILIGÊNCIA, PACIÊNCIA e BONDADE.

É de se dizer que além de todas estas Virtudes, o desajeitado repórter do Planeta Diário ainda consegue colacionar ao seu repertório de bom moço a ESPERANÇA.

Além de sua crença de que eventos positivos podem ser extraídos até mesmo de situações em que tudo indique o contrário, a sua perseverança em crer que no final dará tudo certo, a figura de sua identidade secreta, o Superman, contagia as pessoas com a ESPERANÇA há muito perdida ou quem sabe nunca experimentada. É sem dúvida alguma o melhor herói no sentido mais puro, etimológico da palavra.

 “Antes de ser o Super-Homem, eu sou Clark Kent. ”

De fato, esta é a melhor fala do herói em termos de descoberta. Na verdade, ela serviu para colocar, definitivamente, uma pedra sobre a ideia de que o repórter não passava de uma mera fantasia cujo único objetivo era ocultar a presença de Kal-El dentre a sociedade, aliás eu já falei tudo isso e creio que já me tornei um chato, mas este pensamento é indispensável para compreender a seguinte sentença: CLARK KENT SEMPRE PODERÁ SER O SUPERMAN, MAS O SUPERMAN NUNCA PODERÁ SER CLARK KENT.


Super-Homem é o herói que todos amam, porque Clark Kent é o melhor ser humano que este mundo poderia ter. Tanto é verdade, que ninguém consegue odiar o repórter, quase ninguém, quer dizer, pois Luthor não é muito seu fã (risos)

O que eu quero dizer, é que Clark Kent já era um herói muito antes de Superman existir para o mundo, e podem dizer o porquê? Eu posso. Porque Clark Kent teve a heroica criação de Jonathan e Martha Kent.

É impossível falar de um herói sem traçar um paralelo com a formação de seu caráter, até porque Jonathan e Martha Kent são, para mim, os verdadeiros heróis das histórias do Superman, pois sem eles, o kryptoniano jamais seria um “S”ímbolo de positividade para o mundo.


Vejam bem, este herói foi criado para despertar o melhor da humanidade. Ele foi criado para levar aos lares de todo o mundo a verdadeira concepção do que é ser verdadeiramente humano, portanto, do meu humilde ponto de vista, o que a DC Comics fez com a nova versão do personagem em New52, foi colocar num caixão toda uma ideologia construída através de décadas e Zack Snyder, por sua vez, com seus filmes “Man of Steel” e “Batman v Superman: Dawn of Justice”, encarregou-se de martelar os quatro pregos na tampa. Isto sem mencionar a versão de “Injustice” (afff). Eu não vou me alongar nestas versões bizarras de Superman, pois Jamy Milano já o fez com excelência ímpar em seu artigo, leiam, pois vale muito a pena conferir.

Eu quero aproveitar para rebater uma visão costumeiramente empregada nos debates, a de que o Superman dos Novos 52 e de Snyder refletem a atualização do herói para os tempos modernos, ou seja, que é a adequação do personagem a realidade da sociedade atual. Olha, eu me recuso a aceitar tal ponto de vista, pois se acima de tudo Superman é o “humano” Clark Kent, e se o Clark Kent destas versões reflete os humanos de hoje, eu sinceramente digo que nós estamos na merd@. Eu prefiro sua clássica versão em que nos fornece dia a após dia a ESPERANÇA de um mundo melhor.

Falando em esperança, o que dizer do Superman COADJUVANTE da série Supergirl? Todos já ouviram o ditado “quem espera sempre alcança”? Pois eu esperei e alcancei, não nos cinemas, infelizmente, mas mesmo assim serviu para apagar a imagem de Cavill de uma vez por todas de minha memória (risos).


O CW me deu de presente um Superman que eu não via desde 2006 com “Superman Returns”, quando o ator Brandon Routh conseguiu absorver a verdadeira essência do personagem e transmiti-la através das telas do cinema. Uma pena o filme em si ter sido fraco. Mas voltando ao seriado, Tyler Hoechlin, apesar de sua compleição física limitada, até mesmo de seu traje, para alguns mal elaborado, superou uma produção hollywoodiana de orçamento astronômico, com mais de duas horas de duração, em apenas poucos minutos em que apareceu no primeiro episódio da segunda temporada de Supergirl. E isso não sou eu quem está dizendo, são os números trazidos pelas impressas especializadas que nos atestam isso. Supergirl foi um estouro de audiência e com certeza não foi por causa da heroína (risos).

Pois é, ladies and gentlemen, parece que a velha guarda ganhou a queda de braço contra a turminha melancólica da nova geração, pois Rebirth nos presenteou com a volta do Homem de Aço de John Byrne, já visto logo de cara em Convergência; a série de TV igualmente nos devolveu o clássico personagem às telas; e recentemente Geoff Johns chutou para escanteio Zack Snyder e suas tenebrosas visões heroicas. Dá para melhorar? Não sei, preciso assistir “Man of Steel 2” (risos).

Para enterrar, de uma vez por todas, esta versão do Superman “adequada à sociedade atual”, John Ostrander, quadrinista monstro, escreveu o seguinte para o blog Comicmix:

“O Superman dos filmes é mais sombrio, pensativo, com um pouco de Batman. Esse Superman de roupa azul escuro nos é vendido como um Superman mais realista. É aí que mora o problema. Agora o Superman da série é mais tradicional, mais confiante e tem uma visão mais esperançosa das coisas, e sem desmerecer Henry Cavill, mas Hoechlin é um ator melhor. ” 

E completa:

“Hoechlin também nos entrega um ótimo Clark Kent, que lembra muito o de Christopher Reeve, com aquele humor que retrata o cara atrapalhado. Quando sua prima o elogia no elevador, ele se atrapalha todo e diz que aquilo não foi uma encenação. Isso é cativante. A Warner Bros. agora tem um problema: O melhor Superman não está na tela grande do cinema, e sim na pequena da TV. ”


Depois dessa eu não preciso dizer mais nada. Não... há algo mais a dizer, porém prometo ser breve, afinal de contas, já saturei a vista de quem me acompanhou até aqui (risos), mas é que ao transcrever a fala de John Ostrander, lembrei-me que nosso papo seria sobre Superman e Batman, o que me remete ao fato de que ainda não revelei a verdadeira máscara desse herói, então vamos lá:

Ao contrário de Superman, Batman não é uma identidade secreta, porque Bruce Wayne é.

Para quem é fã do morcego fica fácil, ao menos é o que penso, visualizar que Bruce Wayne é o disfarce de Batman para conseguir todos os recursos necessários para pôr em prática a sua vingança. Assim como Clark Kent nasceu ao ser amparado por seu novos pais, Bruce Wayne morreu quando as vidas de Thomas e Martha Wayne foram ceifadas no beco do crime.


Tem uma história que gosto muito, que se chama “Absolvição”, roteiro de J.M. DeMatteis e arte de Brian Ashmore. Nela há uma revelação muito forte, quando Batman se pronuncia da seguinte forma: “O rosto que você viu... aquilo é a máscara! Diga ao mundo quem sou... eu não me importo! Isso apenas me libertará... para ser quem eu realmente sou.


Cara, isso é muito forte! É impressionante como estes dois personagens são a contraparte um do outro. A DC Comics conseguiu com excelência demostrar isso: Clark Kent é um IDEALISTA, Batman um REALISTA; Clark é motivado pelo ALTRUÍSMO, Batman pela VINGANÇA. Elevando nosso papo para um patamar ainda mais filosófico, Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes, concordavam que o homem em si era o verdadeiro problema para seus semelhantes, entretanto, divergiam quanto a natureza do ser humano. Para o primeiro, o homem é bom por natureza, para o segundo, ele é mau. Assim é com nossos heróis, Clark Kent enxerga o melhor das pessoas, ele tem a certeza da bondade no íntimo de cada ser e sobretudo a esperança de que esta bondade prevalecerá; Batman, por sua vez, está sempre preparado para o pior, para ele não existem milagres, piedade e muito menos redenção, pois a natureza do homem é má em sua excelência e o seu trabalho é, através do medo que dissemina, mantê-la prisioneira dentro de cada um de nós.

Para mim, as obras definitivas destes heróis – muito embora não considere Batman um herói no verdadeiro sentido da palavra, eu o encaro muito mais como um vigilante, e até acho que essa perspectiva seja global – são Paz na Terra e Guerra ao Crime. Estas obras resumem em poucas páginas tudo o que aqui decifrei. Clark Kent sendo SUPER em todas os significados positivos que esta palavra pode representar, e de outro lado, Batman sendo o seu melhor, o verdadeiro espírito da vingança contra todos aqueles que praticam o mau. Para quem não leu, vale muito a pena conferir.



Chego ao fim de meu texto deixando claro ser esta apenas a visão de um humilde fã de super-heróis, heróis, vigilantes e até mesmo de vilões, pois é através deste universo que renovo minhas esperanças de que não importam as dificuldades, de que não importam os problemas, tudo acabará bem, de um jeito ou de outro, tudo sempre acaba bem.


Texto de minha autoria: JF Macedo (Kiko)

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