sexta-feira, 9 de dezembro de 2016



Uma nova batalha pelo vídeo está acontecendo no Brasil. De um lado, um grupo de jovens querendo mudar de vida em um processo de seleção duríssimo; do outro, 12 participantes de um reality show situado na Amazônia.
Os dois times são, respectivamente, os símbolos das principais apostas de Netflix e Globo no mercado nacional de vídeo por demanda: lançada na última sexta-feira, 25, 3% é a primeira produção original do Netflix no País; já a série Supermax foi a maior aposta da Globo em seu aplicativo de vídeo por demanda, o Globo Play, que completou um ano no início deste mês.
Elas não estão sozinhas: Amazon e HBO preveem para breve o lançamento de seus serviços de streaming no País. Juntas, as quatro empresas mostram que, se antes a guerra pela atenção dos espectadores acontecia no controle remoto, agora ela está em qualquer tela – do celular à tradicional TV, agora conectada.
Assistir a vídeos na internet é uma das atividades favoritas dos brasileiros: 69% dos usuários conectados fazem isso, apontam dados do Ibope divulgados em agosto. Ainda segundo o Ibope, 44% dos brasileiros têm na internet hoje “seu principal meio de entretenimento”.
Conhecida por medir os índices de audiência na TV, a empresa deve começar a mensurar em breve também dados sobre o consumo de streaming no País.
Para Fábia Juliasz, diretora de medição da Kantar Ibope Media, a internet mudou a forma como televisão é pensada. “Com a digitalização, o usuário se libertou da grade de programação e ganhou escolha”, diz.
Essa mudança, porém, não aconteceu de forma igualitária pelo País: muitos dos brasileiros, hoje, acessam a rede por meio de conexões 3G ou 4G, no celular.
“Se o usuário assistir a um episódio de uma série, pode gastar o pacote de dados de um mês inteiro”, afirma Fábia. A executiva, porém, vê os streamings atendendo nichos cada vez mais específicos.
“A customização que o vídeo por demanda dá espaço para você explorar oportunidades de mercado.”SinônimoNo Brasil desde 2011, o Netflix aposta na customização do conteúdo.
A empresa não revela números locais, mas fontes do mercado dão conta de que cerca de 4 milhões de brasileiros assinam o serviço.
O número de usuários pode ser ainda maior, pois cada assinatura permite o uso em vários aparelhos ao mesmo tempo. “No Brasil, temos uma geração que adora séries, usa muito as redes sociais e está sempre conectada”, diz Erik Barmack, vice-presidente de conteúdo original da Netflix.
No mundo, o serviço tem 86 milhões de assinantes.Inicialmente um catálogo de filmes e séries, o Netflix deu seu primeiro grande passo no conteúdo original em 2013, com a série House of Cards – uma ficção sobre os bastidores do poder nos Estados Unidos que rendeu à empresa troféus como o Globo de Ouro.
Três anos depois, a empresa dá sua primeira cartada com conteúdo original no País com a série 3%. “Queremos fazer TV que as pessoas vão comentar”, diz Barmack.
Para o executivo, a chegada de novos players ao mercado de streaming não é um problema: “Nossos assinantes também usam a Amazon e o Hulu nos Estados Unidos. Tudo bem se o usuário tiver Netflix e outro serviço”.
Mas só conteúdo não basta: para melhorar a experiência de uso dos brasileiros, a empresa instalou servidores no Rio, São Paulo e Porto Alegre, as três capitais com maior fluxo de tráfego de internet do País.

Experimento

Principal emissora do País, a Globo comemorou recentemente o primeiro ano de operação do Globo Play, aplicativo pelo qual é possível assistir à emissora ao vivo e ter acesso por demanda a alguns programas, como telejornais.
Para ver capítulos de novelas e séries, porém, é preciso pagar uma assinatura mensal de R$ 14,20. Os números do primeiro ano são bons: quase 10 milhões de downloads e mais de 105 milhões de horas visualizadas – suficiente para cada usuário assistir dez capítulos de novela.
Além de replicar o que é exibido na TV, o aplicativo também dá espaço à emissora carioca para testar novos formatos: com a série Supermax, por exemplo, a empresa liberou previamente 11 dos 12 capítulos da produção para os assinantes do Globo Play.
O grand finale, porém, só apareceu no app junto com a TV, para não estragar a surpresa do telespectador. A emissora também tem feito produtos específicos para o Play, como a série Totalmente Sem Noção Demais, derivada de uma novela.
No entanto, ainda há muito a fazer: a maioria dos programas disponíveis no Play foi produzida a partir de 2010 – segundo a emissora, o acervo histórico está sendo digitalizado e negociado para o ambiente digital.
Além disso, é preciso convencer usuários a pagar por algo que eles têm de graça, ao vivo. “Poder assistir ao conteúdo quando quiser levou muita gente a buscar nossa oferta paga”, diz a Globo, sem revelar números.
Além do seu próprio aplicativo, o Grupo Globo também tem outros dois apps de vídeo por demanda, ainda hoje restritos a quem também tem assinaturas de TV paga – o Globosat Play, com conteúdo de canais como GNT e Multishow, e o Telecine Play, com filmes exibidos pelo grupo de canais.
Conforme adiantou o jornal “O Estado de S. Paulo”, há planos para que o Telecine Play se torne uma plataforma independente, podendo ser assinado por qualquer pessoa em breve.

Correndo por fora

Quem também deve alçar voo além da TV paga é a HBO: nos EUA, a emissora oferece o HBO Go, aplicativo com séries como Westworld por US$ 15 ao mês.
No Brasil, no entanto, o serviço só pode ser usado por quem já assina o canal na TV paga. Mas isso deve mudar.
Questionada pelo jornal, a empresa diz que “fecha últimos detalhes com os parceiros” e que o serviço estará disponível num “futuro próximo”.
Principal concorrente do Netflix nos Estados Unidos, a Amazon também pode chegar por aqui em breve. Ao anunciar a série The Global Tour, a empresa disse que a atração estará disponível em 200 países em dezembro – hoje, o Amazon Prime Video está apenas em cinco mercados.
Nos EUA, custa US$ 9. Procurada pela reportagem, a divisão local da Amazon disse que não tem previsão da estreia do serviço no País.
Empresas independentes no País também apostam no segmento. O Oldflix, por exemplo, aposta nos clássicos: no serviço, entram apenas longas feitos há pelo menos 20 anos.
“Em 2017, vamos lançar aplicativos para TVs e smartphones”, diz Manoel Ramalho, criador do serviço, que tem 20 mil usuários.
Mais parecido com o Netflix, o Looke tem filmes e séries.Lançado em setembro de 2015, o serviço diz que não precisa pensar grande para competir: “No Brasil, dá pra sobreviver com 100 mil usuários”, diz Luiz Guimarães, diretor do Looke.
Nesse cenário, é difícil apontar um vencedor. “Acredito que o streaming vai funcionar como os pacotes de TV a cabo: cada usuário vai escolher o que melhor se encaixa no seu bolso”, aposta Luís Bonilauri, diretor da consultoria Accenture.
Para Fábia Juliász, do Ibope, o segredo está em aliar conteúdo e tecnologia – quem só tiver um, que busque parceiros para o outro.
“O app precisa funcionar mesmo em conexões ruins”, diz. No futuro, porém, quando as plataformas estiverem desenvolvidas, a diferença será uma só: “Quem tiver conteúdo vai ter a faca e o queijo na mão”, diz.

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