Len+Wein 2016Dois dias atrás, em 10 de setembro de 2017, faleceu o escritor de histórias em quadrinhos Len Wein, 69 anos, criador de personagens célebres como Wolverine da Marvel Comics e o Monstro do Pântano,da DC Comics.
Nascido em 1946, em Nova York, Len Wein vinha de uma família judia e começou a carreira nos fanzines ao lado do também futuro escritor (e lenda) dos quadrinhos Marv Wolfman. As histórias de Wein nas revistinhas amadoras chamaram a atenção de alguns artistas da DC Comics e o escritor fez sua estreia profissional em Teen Titan 18, de 1968, revista dos Jovens Titãs, grupo de super-heróis adolescentes formado por Robin, Moça-Maravilha, Kid Flash e outros. Esta história introduziu Red Star, o primeiro super-herói da União Soviética no Universo DC.
Trabalhando como free lancer, Wein continuou a vender roteiros para a DC, especialmente na linha de terror da editora; mas também conseguiu alguns pontos na concorrente Marvel Comics, onde estreou em Daredevil 71, de 1970, a revista do Demolidor.
monstro do pântano panini raízes
O Monstro do Pântano foi o primeiro grande sucesso de Len Wein. Arte de Bernie Wrightson.
Na DC, publicou histórias de Superman, Flash e principalmente Adventures Comics, com as personagens Supergirl e Zatanna. E firmou-se no título Phantom Strangeentre os números 14 e 26, de 1971 a 1973, com histórias de ocultismo e magia, onde começou a ganhar maior respaldo. Foi nessa fase que marcou seu primeiro grande lance: junto ao desenhista Bernie Writghson, criou o Monstro do Pântanona revista de terror The House of Secrets 92, de 1971. A recepção ao personagem foi tão boa que logo ganhou uma revista própriaTales of Swanp Thing, lançada no ano seguinte, produzida pela dupla durante dois anos.
Isso abriu as portas para uma das pratas da casa da DC e Wein assumiu a revista da Liga da Justiça, escrevendo uma celebrada fase – a Fase do Satélite – entre os números 100 e 114, de 1972 e 1974, com desenhos de Dick Dillin.
len wein 1970s
Len Wein nos anos 1970.
Com o sucesso, Wein passou a contribuir paralelamente para a Marvel Comics, escrevendo primeiramente Marvel Team-Up, a segunda revista do Homem-Aranha, em 1972, ao mesmo tempo em que o também bastante jovem Gerry Conwaycuidava do título principal. Logo, assumiu também The Incredible Hulk, onde produziu uma longeva fase de 1974 até 1977.
Capa de Hulk 203. Arte de John Romita.
Um grande destaque em sua passagem pelo golias verde foi a história A Morte de Jarella, uma das mais emocionais e queridas dos fãs da velha guarda, na qual o Hulk (e não Banner) perde a única mulher que amara até então. A história foi publicada num arco entre The Incredible Hulk 201 a 205, de 1976, com desenhos de Sal Buscema
wolverine in hulk 180 by herb trimpe
A primeira aparição de Wolverine. Arte de Herb Trimpe.
Foi na revista do Hulk que Len Wein criou Wolverine, ao lado do desenhista John Romita, que apareceu em um arco de histórias em The Incredible Hulk 180, 181 e 182, de 1974. Na época, Roy Thomas era o editor-chefe da Marvel (o substituto de Stan Lee) e queria criar uma nova versão dos X-Men, que tinham deixado de ser produzidos em 1970 por vendas baixas. Thomas encarregou Wein da missão e o primeiro produto – feito como teste – foi justamente Wolverine.
giant size x-men 01 cover by gil kane 1975
Capa de Giant-Size X-Men 01, por Gil Kane.
Bem recebido pelos leitores, Wolverine pavimentou a criação dos Novos X-Men, que estrearam na revista especial Giant-Size X-Men 01, de 1975, trazendo além de Wolverine, os novatos Tempestade, Colossos, Noturno e Pássaro Trovejante (todos criados por Wein, agora ao lado do desenhista Dave Crockum) aliados aos já existentes Solaris e Banshee, e liderados pelo veterano Ciclope.
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X-Men 94: os mutantes voltam às bancas por Len Wein. Arte de Gil Kane.
sucesso dos novos X-Men levou ao relançamento da revista do grupo, ainda em 1975. Porém, quando isso aconteceu, Roy Thomas tinha saído do cargo de editor-chefe, no fim de 1974, e coube justamente a Len Wein substituí-lo.
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Len Wein, editor-chefe da Marvel.
O novo cargo obrigou Wein a se afastar dos X-Men, por isso, ele escreveu apenas as duas primeiras revistas do relançamento – os números 94 e 95 (que continuavam a numeração dos anos 1960) – passando o bastão para o novato Chris Claremont, que ficaria 18 anos à frente do título e, trabalhando sobre a base de Wein, transformaria os mutantes no maior sucesso editorial da Marvel no período.
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O Dr. Octopus na bela arte de John Romita, capa de “Amazing Spider-Man 157”, escrita por Len Wein.
Além disso, Len Wein assumiu o título principal do Homem-AranhaThe Amazing Spider-Man, a partir do número 151, de 1974 e passou quatro anos à frente do título. Sua fase é muito elogiada e apreciada, sendo um momento clássico nos quadrinhos, com grandes confrontos com o Dr. Octopus, o Rei do Crime, Abutre, o desenvolvimento do Justiceiro como coadjuvante do Aranha e até a participação especial dos X-Men em um número. O artista que lhe acompanhou foi Ross Andru, embora as capas fossem de autoria de John Romita. Dentre suas contribuições, também está o surgimento do terceiro Duende Verde. Outro títulos que escreveu com sucesso foram The Defenders (os Defensores) e Quarteto Fantástico, além de criar o personagem Irmão Vodu.
Após deixar a editoria da Marvel, em 1977, Wein terminou voltando à DC Comics, onde escreveu principalmente o Batman e o Lanterna Verde. No primeiro, por exemplo, criou o personagem Lucius Fox, o CEO da Wayne Enterprises, em Batman 307, de 1977, e o terceiro Cara de Barro em Detective Comics 478, de 1978.
batman 255 cover by neal adams
Batman 255, escrita por Wein. Arte de Neal Adams.
As histórias do Batman dos anos 1970 tinham um elemento de terror muito forte, criado pelo roteirista Dennis O’Neil e impulsionado pela bela arte sombria de Neal Adams. Sabatinado nas histórias de terror da editora, Len Wein desenvolveu esse elemento muito bem, criando grandes histórias. Uma das mais lembradas do homem-morcego daquela década é justamente escrita por Wein e desenhada por Adams, na qual o cavaleiro das trevas precisa enfrentar um lobisomem, um elemento sobrenatural incomum ao que o herói estava acostumado, publicada em Batman 255, de 1973.
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Monstro do Pântano: intelectualismo com Alan Moore.
Ele também escreveu para Batman and the Outsiders (Batman e os Renegados, no Brasil) mas nos anos 1980 cuidou principalmente do lado editorial da DC, sendo o responsável por supervisionar, por exemplo, a maxissérie Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Também com Alan Moore, Wein foi o editor de uma nova temporada da revista do Monstro do Pântano, na qual o escritor britânico ficou célebre, com seus conto profundos e marcados de terror.
Sua importância como editor na DC Comics foi enorme, pois foi o grande responsável pela chamada Invasão Britânica. Interessado no material que escritores britânicos estavam realizando em seu país natal, Wein convidou vários deles – Alan Moore, Neil Gaiman, Alan Grant, Grant Morrison etc. – a produzirem histórias para a DC, com um resultado avassalador. Moore escreveu o Monstro do Pântano e nessa revista também criou o mago John Constantine; depois criou Watchmen; Gaiman produziu histórias especiais e criou Sandman, o grande sucesso do Selo Vertigo; Grant fez um grande sucesso em histórias sensacionais do Batman; e Morrison começou num título pequeno, o Homem-Animal, produzindo histórias revolucionárias que lhes tornaram um dos grandes nomes da editora nos anos seguintes.
LendasPANINI - john byrne
“Lendas”, por Ostrander, Wein e Byrne.
Os últimos destaques de Len Wein como escritor nos quadrinhos mainstream foram criar os diálogos para a minissérie Legends – que restabeleceu a Liga da Justiçapós-Crise nas Infinitas Terras  e que também criou a versão moderna do Esquadrão Suicida – que fora escrita por John Ostrander e desenhada por John Byrne, em 1987; além de fazer também os diálogos da nova (e lendária) fase da Mulher-Maravilha, escrita e desenhada por George Perez, entre 1987 e 1988.
Wonder_Woman_Vol_2_1_FullApós uma rodada por quadrinhos independentes, ter sido o editor-chefe dos quadrinhos Disney e alguns trabalhos na IDW Comics, Len Wein vinha trabalhando – como muitos de sua geração – na escrita de roteiros para séries de TV. No caso dele, escreveu principalmente para a franquia Ben 10, embora também tenha colaborado com o infantil Marvel Super-Heroes Squad.
len wein and hugh jackman
Criador e criatura: Wein ao lado de Hugh Jackman, que interpretou Wolverine nos filmes.
Len Wein foi primeiramente casado com Glynis Oliver, uma célebre colorista da Marvel Comics, mas depois se divorciou e casou-se com Christine Valada, uma fotógrafa. Nos últimos anos, a vida de Wein sofreu alguns baques: em 2009sua casa na Califórnia foi atingida por um incêndio que destruiu boa parte de seu acervo pessoal, incluindo os prêmios de sua carreira nos quadrinhos. Em 2015, ele foi submetido a uma cirurgia cardíaca e implantou um marcapasso. Foram as complicações cardíacas que levaram à sua morte, noticiada via Twitter por escritores da Marvel, que prestaram homenagens, como Brian Michael Bendis.
Com sua morte, perde-se um grande nome dos quadrinhos em todos os tempos.