quinta-feira, 26 de outubro de 2017

As expectativas sobre Thor – Ragnarok são altas para o grande público, que ficou curioso com as cores fortes, o tom de humor e a batalha entre o deus do trovão e o Incrível Hulk. Com a estreia, o que podemos dizer do filme? Esta é a resenha crítica do HQRock.
Thor – Ragnarok é frustrante. Um desperdício de energia, de uma boa história e de alguns bons personagens. O Marvel Studios foi ousado em contratar o diretor neozelandês Taiki Waitita, figura apreciada no cinema indie, para comandar sua primeira superprodução e trazer o capítulo final da (primeira?) trilogia do deus do trovão que é um dos mais poderosos membros dos Vingadores. Porém, a opção do diretor de transformar Ragnarok em uma comédia pastelão tira todo o peso da ameaça do “apocalipse da mitologia nórdica”, o fim de tudo, a morte dos deuses, além de deixar nula a presença de uma vilã absolutamente poderosa e implacável como Hela, a deusa da morte.
thor ragnarok EW hela closeupMas vamos primeiro aos pontos positivos. Para começar, a história de Ragnarok é muito boa. O arco do filme é interessante. Thor deixou os Vingadores dois anos atrás, ao fim de Era de Ultron, em busca de informações sobre as Joias do Infinito e passou dois anos vagando pelo espaço, mas não às encontrou e, agora, percebe que está tendo sonhos recorrentes sobre a destruição de Asgard. De algum modo não bem explicado (e isso é uma falha), o filho de Odin termina aprisionado no reino de Surtur, o deus de fogo que, tanto na mitologia, quanto nos quadrinhos é um dos maiores oponentes do herói (e de seu pai, também).
É Surtur quem explica a Thor a profecia do Ragnarok e que ele já teria começado e terminaria com ele próprio, Surtur, invadindo Asgard, sendo fortalecido pelas energias do lugar e com a Espada do Destino simplesmente destruindo tudo. (Isso é uma liberdade em relação ao material original, em que Thor é morto pela Serpente de Midgard).
ragnarok odin gold cloudEm seguida, Thor retorna a Asgard após dois anos para encontrar seu reino um pouco diferente: Odin se tornou relapso enquanto ameaças espreitam de perto. Claro, nós já sabemos – pelo fim de Thor – O Mundo Sombrio – que Loki tomou o lugar do próprio pai. O deus do trovão descobre a artimanha rapidamente e força a Loki a buscar o pai de ambos. O todo-poderoso estava em um asilo de sem-tetosem Nova York, o que os leva a encontrar o Dr. Estranho. E, por mais que seja interessante ver de novo Benedict Cumberbatch no papel do mago mais poderoso da Terra, é uma aparição totalmente gratuita. É Strange quem manda Thor e Loki à Noruega, onde Odin está.
O todo-poderoso comunica aos filhos sobre o Ragnarok e explica a história de Hela, a deusa da morte, que – isto não é spoiler, porque já foi revelado em entrevistas, notícias e nas propagandas de TV do filme – é, na verdade, a primogênita de Odin, e assim, irmã de Thor e Loki. Ela é absolutamente poderosa, e quando chegar em Asgard, alimentada pelas energias de lá (sim, você já leu essa frase) vai se tornar invencível.
ragnarok hulk in actionLoki e Thor lutam contra Hela e Thor termina jogado em um buraco de minhoca e vai parar no planeta Sakaar, em que é forçado a lutar em uma arena de gladiadores, da qual surpreendentemente o Hulk é a grande estrela. (O modo como ele foi parar lá não é bem explicado, afinal, ele estava no Quinjet, na Terra, então, como foi parar num buraco de minhoca no espaço?) A batalha entre os dois na arena, já antecipada em parte nos trailers, é um dos pontos altos do filme. Bem filmada e coreografada, mostra os poderes de cada um e como (quase) se equiparam em força.
Loki está lá também, assim como uma das Valquírias, as lendárias guerreiras asgardianas. Após alguma embromação, Thor, Hulk e Valquíria se unem e escapampara Asgard para lutar contra as forças de Hela, que dominou completamente o reino sagrado.
thor ragnarok EW loki watchingOutro ponto forte do filme é o visual. Exagerado e espalhafatoso, especialmente nas partes em Sakaar, é uma homenagem à arte de Jack Kirby, que com seu estilo fabuloso e único imprimiu a marca definitiva de Thor e seu mundo nos quadrinhos. (Saiba mais aqui!) As linhas e círculos combinados, os padrões “alienígenas”, as faixas e adornos estranhos, tudo isso compõe de modo sensacional o visual do filme. As cores são carregadas como eram as pinturas simples em quatro cores dos quadrinhos antigos, antes da pintura por computador que chegou no início dos anos 1990. E de modo curioso combinam também com aquela estética típica dos anos 1980, com cores fortes, neon e exagero. Claro, em um filme tradicional, esse apelo visual seria cafona e inadequado, mas como se tratam de elementos alienígenas, funciona muito bem.
Ainda quanto ao visual, pela primeira vez, Asgard ganha uma textura mais real, pois o diretor optou por filmar a maior parte das cenas, inclusive as externas, em cenários reais (e não tela verde), o que é um alívio aos olhos. E torna tudo mais real e agradável.
ragnarok hela in the bifrostTambém no quesito visual, alguns personagens são arrebatadores, em especial Hela, que está simplesmente idêntica à sua contraparte nos quadrinhos. Inclusive, com os adornos na cabeça! Skurge, o Exterminador, também está igual ao visual criado por Jack Kirby.
As interpretações dos atores não estão sensacionais, à exceção de dois casos: Anthony Hopkins entrega o seu melhor Odin até agora, mais à vontade com o personagem e melhor posicionado na trama; e Idris Elba como Heimdall, que também ganha sua melhor versão, e com um papel realmente importante dessa vez. A Hela de Cate Blanchet é uma grande vilã, uma ameaça sensacional – poderosa, implacável, invencível – mas a interpretação da atriz não está no seu melhor, soando um pouco afetada demais. Como a boa atriz que é, ela imprime empáfia, sadismo e autoconfiança que a personagem deveria ter e, honestamente, não consigo imaginar melhor atriz para dar vida a Hela, mas talvez pela posição dela na trama e o tom geral do filme, termina não ficando bom como poderia. Não será um ponto alto de sua carreira.

thor ragnarok sets hemsworth hiddleston and director
Thor e Loki (e o diretor) em trajes civis.

Todavia, apesar daqueles bons pontos listados, Ragnarok no todo é ruim de doer. Sem dúvidas, é o mais fraco da extensa lista de filmes do Marvel Studios. E pode até ser seu primeiro fracasso. A crítica tem gostado, mas o material é constrangedor. E a causa é simples: o diretor Taika Waititi transforma Ragnarok em uma comédia de mal gosto.
O humor é uma das marcas fortes do Marvel Studios desde sempre, desde Homem de Ferro, em 2008, e embora existam alguns filmes mais sisudos como O Incrível Hulk ou Capitão América – O Soldado Invernal, o humor continuou sempre presente e Guardiões da Galáxia levou a coisa para outro nível, apresentando uma comédia histérica de bom gosto que todos amaram. Homem-Formiga surpreendeu o mundo por sua qualidade e o humor ali também é de bom gosto e bem usado.
thor ragnarok EW thor gladiatorEm Ragnarok não! É um humor de baixo calão, não no sentido de baixaria, mas de algo mal usado, de mal gosto e inadequado. Thor grita de modo histérico e afetado(com voz aguda!!!!) duas vezes no filme e, em outra ocasião, se vê mortalmente assustado na iminência de ter seu cabelo cortado…
Hulk de Waititi é uma criança birrona, que se comporta como um menino mimado fazendo biquinho!!!! O Grão-Mestre de Jeff Goldblum parece o painho do Chico Anísio, só que ainda mais indulgente, e menos inteligente. E pensar que nas HQs ele é um dos Anciões do Universo, uma das criaturas mais poderosas do universo e um manipulador e jogador inteligentíssimo.
thor ragnarok EW grandmasterSakaar tem o diferencial de ser o ponto final de vários buracos de minhoca e Waititi usa isso de modo “engraçadinho” ao chamar o maior deles de Ânus do Demônio e toda uma série de piadinhas infames sobre Thor e seus amigos precisarem entrar lá.
É desolador.
O astro Chris Hensworth se mostra totalmente à vontade em seu novo papel de Thor infantil e rei da comédia – ele pode ser mesmo um bom comediante se bem dirigido – mas o resto do elenco não parece bem assim. Alguns atores, como Tom Hiddleston (Loki) e Mark Ruffalo (Bruce Banner/Hulk) parecem mesmo constrangidos em estar ali em algumas cenas.
ragnarok heimdallEm termos de comédia, Waititi só acerta quando não a usa. Pelo bem da sanidade, personagens como Odin, Hela e Heimdall são poupados 100% de qualquer traço de humor ou comédia, o que é um alívio imenso.
No fim das contas, embora possa até rir em alguns momentos do filme (e pensar em pontos positivos como os acima elencados), o espectador termina Ragnaroktriste, percebendo de imediato o desperdício de tudo.
Na sessão em que assisti – uma pré-estreia – o público saiu do cinema em um silêncio constrangedor. Estavam constrangidos. Com vergonha alheia.
ragnarok skurgecrítica tem elogiado Thor – Ragnarok, o que é estranho. Talvez, o humor de mal gosto do filme caia bem aos ouvidos norteamericanos. Talvez, a crítica brasileira esteja só seguindo a onda. Ou foi paga para falar bem. De qualquer modo, o público de pré-estreias é aquele mais interessado no filme e, tomando isso como referência, se Ragnarok agradar ao grande público, mas não ao fã de quadrinhos ou super-heróis, este é um caminho perigoso para filmes desse tipo. É um passo para o fracasso.
Além disso, a história recente do cinema mostra que o sucesso não é medido só por bilheteria – que é um indicador imediatista – mas que a impressão deixada em médio prazo é até mais importante. Daí que filmes como Batman vs. Superman – A Origem da Justiça tiveram bilheteria excelente (mais de 800 milhões!), mas deixaram uma impressão tão ruim ao grande público em médio prazo que são considerados fracassos por todos.
thor ragnarok EW valkyrie in the barVeremos o desempenho de Thor – Ragnarok nos próximos meses.
E você? O que achou do filme? Escreva nos comentários suas impressões.

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