sábado, 11 de novembro de 2017

A polêmica dos abusos sexuais em Hollywood parece não ter fim e quanto mais se mexe, mais coisas preocupantes aparecem. Agora, duas atrizes da franquia dos X-Men nos cinemas, Ellen Page (que viveu Kitty Pryde em X-Men – O Confronto Final e X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido) e a recém-chegada Jessica Chastain (que faz o papel de uma misteriosa vilã no ainda não lançado X-Men – Fênix Negra) vieram a público separadamente para denunciar dois diretores da franquia mutante: Brett Ratner e Bryan Singer.
kitty pride by ellen page
Ellen Page como Kitty Pride em O Confronto Final.
O relato de Ellen Page é mais contundente. A jovem atriz veio ao Facebook e escreveu um “textão” sobre a situação das mulheres (e outras minorias, como homossexuais, negros e indígenas) que sofrem cotidianamente o assédio e a violação sexual dentro da indústria de Hollywood, mas têm suas vozes silenciadas. Page afirma saber que é privilegiada por ser rica, relativamente famosa e poder falar sobre o tema, mas se padece e quer chamar atenção para aqueles que não podem fazer isso.
Page relata primeiramente um caso ocorrido com o diretor Bret Ratner, que comandou X-Men – O Confronto Final, de 2006, quando a atriz tinha 18 anos de idade. Page é lésbica e o diretor manteve uma postura homofóbica durante toda a filmagem, “tirando sarro” da condição da atriz e lançando comentários sexualmente agressivos sobre várias mulheres no set de filmagens.
“Você deveria fuder com ela para ela perceber que é gay”. Ele disse esta coisa sobre mim durante um “encontre e conheça” entre o elenco e a equipe antes de começarmos a filmar X-Men – O Confronto Final. Eu tinha 18 anos de idade. Ele olhou para uma mulher ao meu lado, dez anos mais velha do que eu, apontou para mim e disse: “Você deveria trepar com ela para ela perceber que é gay”. Ele era o diretor do filme, Brett Ratner.
Eu era uma jovem adulta que ainda não tinha me descoberto. Eu sabia que era gay,  mas não sabia muito para falar sobre isso. Me senti violada quando isso aconteceu. Olhei para baixo, pros meus pés, e não disse nem uma palavra e observei como ninguém mais também o fez. Este homem, que havia me selecionado para o filme, começou nossos meses de filmagens com um evento de trabalho com esta terrível, desafiadora praga. Ele me expôs sem desculpas para meu bem estar, e agiu de um modo que todos perceberam como homofóbico. Eu continuei observando ele no set dizendo coisas degradantes sobre as mulheres. Eu lembro de uma mulher caminhando pelo monitor [da câmera] e ele fez um comentário sobre a “buceta inchadinha” dela.
Também fala que confrontou o diretor quando este tentou obrigá-la a usar uma camiseta com a frase “Equipe de Ratner”, alegando que não era do “time” do diretor e sofreu uma advertência disso de um dos produtores do filme.
20th Century Fox "X-Men: The Last Stand" Photocall
Sir Ian McKellen, Patrick Stewart, Brett Ratner e Hugh Jackman (Photo by E. Charbonneau/WireImage for 20th Century Fox Studios).
É interessante ver a postura homofóbica e sexista de Bret Ratner no set, quando parte considerável de seu elenco em O Confronto Final era formado por gays assumidos, incluindo Ian McKellen, que interpreta Magneto e é o segundo protagonista do longa, atrás apenas de Hugh Jackman, que fazia Wolverine. McKellen é um ativista dos direitos dos gays na Inglaterra.
Famoso pelos filmes A Hora do Rush, Brett Ratner assumiu a direção de O Confronto Final depois que Bryan Singer (que também é gay) cansou da indecisão da 21th Century Fox sobre produzir ou não o filme e aceitou o convite da Warner Bros.para comandar Superman – O Retorno. Irada pelo movimento, a Fox acelerou a produção de O Confronto Final para lançá-lo no mesmo ano do outro.
Tenho sido uma atriz profissional desde os dez anos de idade. Tive a boa sorte de trabalhar com muitos colaboradores honrados e respeitados, tanto atrás quanto na frente das câmeras. Mas o comportamento que estou descrevendo é dúbio. Eles (abusadores) querem que você se sinta pequeno, que fique inseguro, que seus sentimentos sejam apropriados por eles, ou que suas próprias ações são a culpa da não-quista ação deles.
Quando eu tinha dezesseis anos, um diretor me levou para um jantar (uma obrigação profissional e uma que é muito comum). Ele colocou a mão na minha perna, por debaixo da mesa, e disse: “Você vai ter que fazer o movimento, eu não posso”. Eu não fiz o movimento e fui sortuda por conseguir sair da situação. É uma conquista dolorosa: minha segurança não é garantida no trabalho. Uma figura de autoridade adulta com quem eu trabalhei tentando me explorar fisicamente. Eu fui sexualmente assediada por um operador de grua meses atrás. Fui convidada por um diretor a dormir com um homem de vinte e tantos anos e dizer a ele como foi. Eu não fiz. Isto é apenas o que aconteceu comigo no meu 16º ano, uma adolescente na indústria do entretenimento.
E a atriz continua, lembrando das mulheres que lutaram contra a violência sexuale lamentando que tanto o Juiz da Suprema Corte quanto o Presidente dos Estados Unidos sofrem de acusações de assédio sexual. enquanto a acusação ao primeiro foi desacreditada e o segundo faz chacota sobre o comportamento. Também comenta sobre uma indígena que foi encontrada morta e o pai acusou um executivo da Miramax de tê-la estuprado. Miramax era uma das empresas de Harvey Weinstein, o poderoso produtor cujas acusações deram início ao escândalo de denúncias de abuso sexual.
Page relembra os casos do comediante Bill Cosby e do diretor Roman Polanski – ambos com graves acusações de abuso e estupro – e que devíamos parar de admirar figuras como essa. Page também diz que um dos seus maiores arrependimentos na vida é de ter feito um filme de Woody Allen, outro diretor que já teve acusações do tipo no passado.
jessica-chastain-power-of-women-ny-2017De modo mais sintético, Jessica Chastain postou no Twitter uma mensagem escrita “Não vamos esquecer”, compartilhando uma notícia do Daily Wire sobre as acusações de estupro de meninos menores de idade realizadas contra Bryan Singer, que dirigiu nada menos do que quatro dos filmes da franquia X-Men (inclusive, os dois primeiros e os dois últimos) e atuou como produtor de outros dois.
A reportagem do Daily Wire colocou que já foram feitas três acusações formais de estupro de menores contra Singer, sendo o primeiro caso em 1997 e os outros dois em 2014, mas todos não foram a julgamento por falta de provas. O site também destacou as postagem no Twitter de alguém chamado Justin Smith, que alega ter conhecido Singer (quer era amigo de seu namorado) e que o diretor o assediou várias vezes e que nas festas sempre estava “distribuindo” meninos de 16 ou 17 anos para homens mais velhos de 50 a 70 anos que apresentava como “produtores”. As postagens já foram tiradas do ar.
O fato é que as acusações de 2014 vieram pouco tempo antes do lançamento de X-Men – Apocalipse e a 21th Century Fox decidiu simplesmente “esconder” Singer de todo o processo de divulgação do filme, cabendo ao produtor e roteirista Simon Kinberg fazer esse papel. Veterano em Hollywood – e também produtor e roteirista da franquia desde O Confronto Final – Kinberg foi quem dirigiu o ainda inédito X-Men – Fênix Negra, na qual Jessica Chastain faz uma vilã que todos pensavam ser a Imperatriz Lillandra, dos alienígenas S’hiar.
Após Chastain publicar o comentário sobre Singer no Twitter, alguém questionou-a se ela não estava trabalhando num filme (Fênix Negra) na qual Singer era um dos produtores (ele realmente mantém esse crédito). Chastain respondeu:
Eu não sabia que ele estava envolvido [com o filme] até bem recentemente. Ele não me contratou e não apareceu no set.
É uma pena ver que Hollywood é um ambiente tão tóxico.

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